Ética na pandemia e pós pandemia

Aser Cortines

 

Para que possamos falar de ética, precisaremos falar inicialmente sobre a palavra moral. Os termos moral e ética vêm sendo utilizados por muitos com o mesmo sentido e não sem razão, uma vez que recorrendo as origens latina e grega, das duas, encontraremos a palavra costumes.

Como tem dito a professora de filosofia, Terezinha Rios, é importante fazer a distinção entre estas duas palavras. Para aqueles que fazem a diferenciação entre moral e ética vamos encontrar, em outras culturas e até em pessoas de uma mesma cultura, uma conceituação diametralmente oposta daquela que iremos apresentar a seguir. Por isso, ao conversar com alguém sobre o tema, inicie a conversa apresentando a sua abordagem sobre moral e ética, para que possa existir o diálogo. 

Moral será para nós o conjunto de normas, regras, procedimentos e leis necessárias para que possamos viver em sociedade.

A ética, por ter na sua essência o bem comum, está pautada em princípios e tem como papel principal exercer uma crítica permanente sobre a moral. Os princípios da ética são: respeito, justiça e solidariedade.

Dentro desta lógica, diferentemente da moral, que se ajusta quando temos grupos e culturas diferentes, a ética tem a pretensão de ser universal e permanente. No entanto esse conceito tem avançado com a evolução do nível de consciência da humanidade.

A propagação do COVID19 provocou, talvez, a maior transformação, de curto prazo, porque já passou a humanidade, porque absolutamente todos, no planeta, foram afetados em seus hábitos e costumes.

O enfrentamento dessa pandemia se deu de forma diferenciada entre países e em muitos casos dentro do mesmo país. Citando o Brasil, como exemplo, novas regras de convivência e circulação foram estabelecidas, no nível de cada município brasileiro, que passaram a ser incorporadas a moral.

Precisamos ter clareza que é através da moral que dizemos que algo pode ou não ser feito, é certo ou errado, e que somos passíveis de punição se não cumprirmos o que está estabelecido nas leis e decretos, que fazem parte da moral.

No caso da pandemia as novas regras poderiam ter sido substituídas por princípios gerais que deveriam ser seguidos por todos, a saber: “Higienize as mãos ao frequentar ambientes coletivos e ao chegar em casa”, “Use máscaras em todos os locais frequentados por outras pessoas” e “Evite aglomerações, sempre que possível”.

Ao invés disso, em alguns municípios, foram estabelecidas regras, muitas vezes absurdas e não éticas por não respeitarem os direitos individuais, especialmente de algumas minorias. Para ilustrar, cito o exemplo de uma pessoa que estava nadando, sozinha no mar, e que foi presa porque a moral vigente no município não permitia que as pessoas frequentassem as praias. Poderíamos citar inúmeros outros exemplos como esse.

Embora uma vida não tenha preço, esperamos que todas as perdas humanas e os abusos cometidos durante a pandemia sirvam como lição e provoquem uma grande reflexão, em todos nós enquanto sociedade, para que, após a pandemia, a moral estabelecida possa estar muito mais próxima da ética, ou seja, que os grandes balizadores de nossos comportamentos sejam o Respeito, a Justiça e a Solidariedade

 

Aser é sócio da Cortines&Sebastiá e Conselheiro da LiveLab e demais organizações do terceiro setor. Foi Vice-presidente da Caixa Econômica Federal por 6 anos e também Professor da Faculdade de Economia da UFF, da Pós-graduação da COPPE/UFRJ, do MBA do IBMEC/RJ e da Pós-graduação da FGV. Foi Diretor e Facilitador da Amana-Key e da UEXP.